Geoglifos
podem ser encontrados em várias partes do mundo. Os mais conhecidos e estudados
estão na América do Sul, principalmente na região andina do Chile, Peru e
Bolívia.Marie Reich dedicou a sua vida aos estudos dos geoglifos de Nasca. Há
alguns anos geoglifos também foram encontrados na região amazônica brasileira.
Mais precisamente no Estado do Acre. Rosângela Menezes, Dra.
A nota da descoberta e as fotos foram publicadas na edição de 15 de
Agosto de 1986 no jornal “O Rio Branco”.Em 1999, em outra viagem, um vôo
comercial de Porto Velho para Rio Branco, novamente o Prof. Alceu Ranzi,
percebeu uma dessas gigantescas estruturas da janela do avião. A partir de
2000, com as fotos aéreas obtidas pelo fotógrafo Edison Caetano, os geoglifos
do Acre tiveram repercussão nacional e internacional.
GEÓGLIFOS - SITE DE UM SITO ARQUEOLÓGICO NO ARCRE
GEÓGLIFOS - SITE DE UM SITO ARQUEOLÓGICO NO ARCRE

Geoglifo Santa Terezinha em Capixaba (AC ). Imagem: Édison Caetano e Diego Gurgel
Coordenados
pela arqueóloga Denise Schaan, um grupo de pesquisadores já identificou
e catalogou a existência de 255 geoglifos na parte leste do Acre como
decorrência de um esforço para fazer um amplo levantamento regional
desses sítios arqueológicos. Os geoglifos são figuras formadas por
valetas com largura média de 11 metros , tendo cada valeta de 1 a 4
metros de profundidade. A técnica construtiva inclui muretas de 6 a 8
metros com meio metro de altura. As figuram chegam a medir em média de
100 a 200 metros . Eles possuem, ainda, caminhos com 20 metros de
largura.
Os
geoglifos, que foram construídos entre os seçulos I e X, serviam para
diversas funções: moradia e plantação (aldeias fortificadas) ,
encontros, festas, rituais. Estão localizados em áreas de interflúvio,
entre os divisores de água dos rios Acre, Iquiri e Abunã. Essas imensas
estruturas só se tornaram visíveis após o desmatamento da região e
estão na forma de círculos, elipses, quadrados, retângulos, hexágonos,
octógonos e meia lua, além de formas irregulares. Os geoglifos do Acre
fizeram parte neste ano da lista indicativa do Instituto Nacional de
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encaminhada à
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(Unesco) recomendando que sejam avaliados para possível tombamento como
patrimônio cultural da humanidade, a exemplo das Pirâmides do Egito,
Muralhas da China e as Ruínas de Machu Picchu.
Os
próximos passo dos pesquisadores será selecionar geoglifos para
escavar, entender suas funções e estabelecer uma cronologia, realizar
inventário de espécies vegetais que nasceram sobre os geoglifos,
realizar estudos de solo (fertilidade, áreas de atividade) e estudar
composição da flora na época da construção dos mesmos. As pesquisas têm
sido intensificadas. Recentemente, por exemplo, foram descobertos
diversos novos geoglifos no município de Acrelândia, onde predominam as
figuras retangulares, acompanhadas, às vezes, de outras estruturas
complexas. Na semana passada, durante um sobrevôo, foram feitas fotos
inéditas de novos deles.

Geoglifo parcialmente coberto pela floresta. Imagem: Altino Machado
Entrevista – Denise Schaan, atual presidente da Sociedade Brasileira de Arqueologia, conversou com o Blog da Amazônia:
Temos
255 geoglifos e cada vez que a gente começa a explorar uma área
diferente encontramos mais e mais. Eles não estão apenas nas áreas
desmatadas, mas dentro da floresta também. É um trabalho que vai
demandar muitos anos de estudos. Temos nos surpreendido com a
complexidade de algumas estruturas que temos encontrado, com montículos
e muretas lineares, que formam outros tipos de espaços, que levam para
outros lugares. Não é apenas aquele geoglifo que nos induz a acredita
que ali existiu uma aldeia, mas algo muito ampliado em termos de
ocupação.
Você continua convencida de que os geoglifos
questionam os estudos que concluem que a presença de populações
primitivas na Amazônia era restrita às margens dos rios?
Sem dúvida. A gente tinha conhecimento da existência de valetas, de estruturas defensivas, no Alto Xingu. Nessas áreas de interflúvio para terra firme, que a gente achava que só havia povos nômades ou aldeias que estavam sempre mudando de lugar, temos visto indícios de estruturas mais permanentes cujo espaço foi ocupado por um grande número de pessoas por um longo período de tempo. Essa região do Acre merece um estudo especial porque está afastada do curso do Rio Amazonas, mais próxima dos Andes. Estamos num ambiente que está no caminho entre duas coisas. Povos andinos faziam trocas com povos da Amazônia. Esses geoglifos podem indicar um local de passagem que a gente ainda não conhece.
Sem dúvida. A gente tinha conhecimento da existência de valetas, de estruturas defensivas, no Alto Xingu. Nessas áreas de interflúvio para terra firme, que a gente achava que só havia povos nômades ou aldeias que estavam sempre mudando de lugar, temos visto indícios de estruturas mais permanentes cujo espaço foi ocupado por um grande número de pessoas por um longo período de tempo. Essa região do Acre merece um estudo especial porque está afastada do curso do Rio Amazonas, mais próxima dos Andes. Estamos num ambiente que está no caminho entre duas coisas. Povos andinos faziam trocas com povos da Amazônia. Esses geoglifos podem indicar um local de passagem que a gente ainda não conhece.
Esses povos poderiam ser aruaque?
A gente sabe, a partir de dados etno-históricos, que os aruaque se distribuíram, a partir das Antilhas, em toda a borda amazônica. Eles usavam essas aldeias mais ou menos circulares, grandes áreas de praças, com as casas em volta. Eles também têm o costume de fazer essas estruturas defensivas, tipo valetas, muretas e estradas. É muito provável que foram povos aruaque que habitaram os geoglifos.
A gente sabe, a partir de dados etno-históricos, que os aruaque se distribuíram, a partir das Antilhas, em toda a borda amazônica. Eles usavam essas aldeias mais ou menos circulares, grandes áreas de praças, com as casas em volta. Eles também têm o costume de fazer essas estruturas defensivas, tipo valetas, muretas e estradas. É muito provável que foram povos aruaque que habitaram os geoglifos.

Qual incógnita precisa se respondida em relação aos geoglifos?
O que acho mais intrigante até agora é o fato de termos encontrado indícios de moradia em alguns e em outros não. Parece que alguns foram construídos para utilização em um único evento. Que evento seria esse? Outra incógnita é saber qual era a vegetação nativa na época da construção dos geoglifos. Precisamos saber se era uma savana aberta ou se era uma floresta. Se era floresta, eles tiveram que destruí-la para construir essas estruturas. Temos encontrado cerâmicas e lâminas de machados de pedra. Os machados não são do Acre. Pedra é um material que existe em Rondônia, mas não no Acre. Podemos deduzir que são instrumentos de troca. Como se deslocavam de um local para outro tão longe? Certamente todos eles estavam em contato, do contrário não teria como se expandir toda essa mentalidade que está por trás dos geoglifos.
E a proteção desse patrimônio arqueológico?
Acho que deveria ser feita uma grande campanha para a proteção desses geoglifos. Não acho que se deva criminalizar a situação. A gente tem um evento de um geoglifo que visitamos em Acrelânida cuja maioria dele está dentro da mata. Quando o proprietário chegou naquela área, a floresta já estava desmatada, mas ele decidiu que não derrubaria o resto porque compreende que é importante para estudos. Sei que não vamos conseguir preservar todos, mas é importante campanhas de sensibilização nesse sentido.
O que acho mais intrigante até agora é o fato de termos encontrado indícios de moradia em alguns e em outros não. Parece que alguns foram construídos para utilização em um único evento. Que evento seria esse? Outra incógnita é saber qual era a vegetação nativa na época da construção dos geoglifos. Precisamos saber se era uma savana aberta ou se era uma floresta. Se era floresta, eles tiveram que destruí-la para construir essas estruturas. Temos encontrado cerâmicas e lâminas de machados de pedra. Os machados não são do Acre. Pedra é um material que existe em Rondônia, mas não no Acre. Podemos deduzir que são instrumentos de troca. Como se deslocavam de um local para outro tão longe? Certamente todos eles estavam em contato, do contrário não teria como se expandir toda essa mentalidade que está por trás dos geoglifos.
E a proteção desse patrimônio arqueológico?
Acho que deveria ser feita uma grande campanha para a proteção desses geoglifos. Não acho que se deva criminalizar a situação. A gente tem um evento de um geoglifo que visitamos em Acrelânida cuja maioria dele está dentro da mata. Quando o proprietário chegou naquela área, a floresta já estava desmatada, mas ele decidiu que não derrubaria o resto porque compreende que é importante para estudos. Sei que não vamos conseguir preservar todos, mas é importante campanhas de sensibilização nesse sentido.
Ramal Floresta, em Acrelândia. Imagem: Diego Gurgel



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